Muitos me dizem que adoram o meu blog, que isto parece ser um máximo e que ficam felizes por estar a adorar.
Huuuuuuum… não é beeeeemm assim!
Como disse no inicio, criei este blog para vos passar um bocadinho o meu dia-a-dia, mas como devem calcular este é um relato extremamente positivo e caricato de Luanda.
Se representar 5% do que aqui se passa já é muito bom.
Não é que isto seja horrível, porque se fosse não estaria cá… mas é um país cheio de situações “difíceis de digerir” onde temos que ser capazes de filtrar muito do que vemos…
Seja por questões de insegurança, pela falta de independência, pelo balúrdio que se paga para ter uma qualidade de vida decente… seja por injustiças sociais, pela miséria, pela corrupção, pela falta de condições básicas como o saneamento… seja pelo caos de conduzir aqui, pelo racismo, por falta de opções e competências médicas, pela falta de luz e água, pela distância, pelas gasosas constantes que te pedem, pela desvalorização da vida, pela má qualidade das estradas, pelas chuvas torrenciais, pela falta de iluminação, pela fome, pelas crianças, pelos doentes, pelos animais esfomeados e mortos no meio da estrada, pelos mosquitos, baratas e ratos, pelo lixo e pelos maus cheiros, seja pelo que for… e acreditem, há mesmo muitos sejas…
(eu tenho muitas fotos... mas dado o tema preferi tirar da net. Um dia mostro-vos!)
Não é uma cidade fácil de “engolir”… e aceitar não é uma possibilidade. Mas estou cá… e tenho de encontrar forma de lidar com isto.
Aprendemos a conviver com uma realidade que rejeitamos e que nos incomoda, mas que é o que é… Até vos podia contar, mas não iam compreender...
Não estou a dizer que ficam indiferentes, não é nada disso… consigo passar a mensagem de forma a perceberem que isto não é um mar de rosas, mas a verdade é que não sentem… não vos muda!
Se não virem com os vossos próprios olhos, se não cheirarem com os vossos narizinhos, se não sentirem a sujidade com as vossas mãos, se não ouvirem por vocês… não conseguem compreender o apertadinho que o coração fica…
Aqui somos obrigados a “crescer” pelas situações com que somos confrontados diariamente… o medo constante, a forma como temos de o disfarçar para passar uma imagem de confiança, como se isto fizesse parte do nosso ADN… isso muda-nos! Muda-nos muito… Começamos a relativizar tudo o que de facto é banal… Ainda há uns dias falava do facto de dar um toque com o carro e fazer um risco que aí é uma dor de cabeça… aqui?!?! Ehhh… siga! Há carros que eu juro que não sei como é que andam… há carros completamente estorricados por curtos circuitos (não sei se o plural de curto circuito se escreve assim) em cada micro estacionamento por onde passamos. Aí estamos sem net 1hora e já estamos a ligar para a nossa operadora… aqui ao fim de 3 dias tentamos perceber o que se passa e guess what?!! Não há rede e assim vai permanecer. Aí se demoramos de manhã 1hora a fazer 25km, é um desespero… aqui demoras 35min a fazer 1,5Km e dizemos que tá fixe! Até fomos rápidos… e mais uma vez, não estou a falar de situações delicadas, apenas de situações do dia a dia que são idênticas.
A postura muda… não podemos ser os mesmos.
A verdade é que criar este blog, me ajudou a procurar o bom que há aqui… há pessoas que chegam num dia e vão no outro embora… quando não dá não dá!
E é muito fácil chocarmo-nos com o que há de mau…
Eu não sou a mais positiva das pessoas, mas para alimentar este blog acabei por dar por mim a olhar pela janela do carro a pensar… ora o quê que há de bom aqui?!? Olha um sorriso, olha uma flor, olha um cão gordinho de trela no meio do bairro, olha um rapaz a ajudar uma senhora…. Olha uma coisa boa! Isso e claro... a pequena família que já tenho deste lado do mundo, ajudam-me a ver Luanda com uns olhos mais optimistas…
Eu não sou a mais positiva das pessoas, mas para alimentar este blog acabei por dar por mim a olhar pela janela do carro a pensar… ora o quê que há de bom aqui?!? Olha um sorriso, olha uma flor, olha um cão gordinho de trela no meio do bairro, olha um rapaz a ajudar uma senhora…. Olha uma coisa boa! Isso e claro... a pequena família que já tenho deste lado do mundo, ajudam-me a ver Luanda com uns olhos mais optimistas…
Depois há aquela questão que mói e remói… o quê que podemos fazer, como é que ajudamos a mudar?! Não há muito, porque não nos podemos “dar”, nem expor muito… a nossa segurança tem de estar em primeiro lugar, e aqui tudo é complicado... Mas ajudamos dentro do possível…
As ajudas passam por dar uma fruta, uma água, um sumo ou até uma refeição aos miúdos que estão aqui à volta, por levar aos seguranças do condomínio, que passam a noite toda ao portão, qualquer coisa para comer e/ou beber, por pedir aos putos que te lavem o carro quando não precisas, por comprares qualquer coisa que até nem precisas a uma zunga (vendedora) na rua porque não consegues imaginar como é que uma pessoa anda com 50kg de ananases na cabeça e uma criança às costas a tentar ganhar o dia para pagar contas e dar de comer à família, por lhes dares uma t-shirt (os olhos até brilham)… na realidade até sermos simpáticos, dizer às pequenotas que têm umas trancinhas muito giras e dar-lhes 2 dedos de conversa é qualquer coisa.
Muitas das pessoas de cá, pouco ou nada fazem, alguns têm trabalhos legítimos e grande parte vende na rua. Passam o dia a carregar Kg às costas… sejam de armários de casa de banho, CD’s, toalhas, carregadores, roupa, tupperwares, lençóis, pasteis, bolos… Tudo! Andam no meio do transito, (muitas vezes são eles os causadores do mesmo!) muitas vezes a correr para conseguirem chegar ao carro que lhes quer comprar alguma coisa… e quando têm o dia feito vão à sua vida.
Podem não ser as melhores pessoas do mundo, que certamente não são, mas também não têm uma vida fácil.
Se pensarmos na qualidade de vida deles, desesperamos… porque não conseguimos conceber tal realidade…
Não conseguimos imaginar como é não ter luz em casa, não ter água para cozinhar e tomar banho, não ter uma casa de banho, não ter um tecto ou paredes, não ter um carro para nos movimentarmos numa cidade destas (aqui não há transportes “públicos” e muito menos organizados…há um comboio que passa de 30 em 30 min e acabou… tens como opção os Quadradinhos que são as tais pães de forma e que vais pagando 100akz por zona, há uns autocarros que não sei ao certo como funcionam, mas que vão à pinha… mas à pinha como nunca tinha visto! E depois tens táxis em que para fazeres 15km pagas cerca de $90)… não conseguimos imaginar como é não ter acesso a água potável para beber, não ter uma cama onde caiba a família toda...
Não sabemos como é não ter… não ter aquilo que para nós é o mais básico dos básicos dos básicos…
Nunca pensei que uma criança pudesse passar 2 semanas sem usar uma t-shirt porque a única que tinha se desfez… andar descalço porque não tem um par de chinelos… mas aqui... aqui é normal! E isso é arrepiante...
E mais uma vez repito… aqui ninguém é anginho, mas esta é uma realidade impressionante e implacável para quem quer que seja.
Não é fácil ajudar… e eu gosto de ajudar!
Por isso tento encontrar pequenas formas de o fazer… porque em parte, é para isso que vimos para um sitio destes… Para de alguma forma fazer a diferença em vez de compactuar com o que aqui se passa.
E agora a outra questão que se coloca... Então como é que vivemos aqui?!
Pois... temos um género de bolha.
Há pessoas que têm a sorte ou o azar de viver esta realidade mais à superfície… eu acabo por ver um bocadinho mais que a maioria… Como sabem, a área comercial anda na rua e eu visito todo o tipo de clientes, dos mais organizados, àqueles em que rezo para não me passar uma barata ou uma ratazana por cima dos pés ou para não ter de atravessar uma possa de dejectos para lá chegar...
Basicamente acabamos por nos refugiar bastante uns nos outros... fazemos muito vida de trabalho, casa, casa, trabalho, casa de amigos, marginal, praia, cinema, restaurante, bares, discotecas… andamos por ruas alcatroadas, não andamos a pé, não ficamos na rua, não andamos de vidros abertos quando conduzimos, não estacionamos a mais de 50 metros do sitio onde vamos, não saímos de nenhum sitio sem ver quem está na rua e a que distância, entramos nos carros e trancamos as portas, não andamos com acessórios que dêem nas vistas, não vamos a sítios com muita confusão, não andamos sozinhos…
basicamente temos a nossa bolha, onde até conseguimos fazer uma série de coisas… mas que não deixa de ser uma bolha.
A melhor parte ainda são as relações que se criam… o espírito aberto e de fácil integração, a interajuda, o apoio incondicional... A experiência que se tem em Angola depende das pessoas que conhecemos quando chegamos... e nisso eu tive mesmo muita sorte.
Aqui temo-nos a nós e estamos cá uns para os outros, e isso é muito bom!
Por isso… Não é um conto de fadas, mas também não é um inferno, é só muito diferente de qualquer coisa que já tenham visto.
E esta supostamente é a melhor altura do ano... no Verão a coisa complica...
See you!

